17.5.09

 

As Comparações Inconvenientes



Em seguimento do escrito anterior, espécie de poema, propositadamente intitulado «Balada do Mal Presente», para dar a impressão da modorra putrefacta em que progressivamente, como Comunidade, nos vamos enterrando, com a cumplicidade ou conivência daqueles que se arrogam de bons democratas, socialistas e social-democratas e outras designações outrora de auspiciosas ressonâncias, tentarei hoje explicitar o sentido que o motivou.

A crítica à actual situação política que aí transparece, com algumas frases de acerba dureza, não parte de mera intenção destrutiva, sem motivo forte que a justifique.

Na verdade, são tantos e tão variados os motivos de indignação com o presente estado de coisas, que só espanta não haver mais manifestações de reprovação e de contestação por parte do povo, do bom Povo Português, que sofre na pele a solerte incompetência do Governo.

Fixemo-nos nós nas questões sociais da Educação, da Justiça, da Cultura ou nas Económicas da Indústria, das Pescas, da Agricultura, etc., não há campo em que não nos sintamos ultrajados com a dimensão da má governação deste elenco «socrático».

Acresce à incompetência geral do Governo, a malignidade das suas acções políticas, a corrupção difusa que alastra por todos os sectores da vida da Nação. Naturalmente, não incumbe a quem faz crítica política por sua particular iniciativa a apresentação das correspondentes soluções alternativas.

Isso, quando muito, exigir-se-á a políticos, aos agentes da oposição ao Governo em exercício, sendo legítimo esperar de quem critica que seja capaz de propor e, eventualmente até, de realizar melhores programas de acção política.

Entendo, no entanto, que a preocupação principal a que devemos atender, quando discordamos de algo, é exprimir com clareza a nossa posição, de preferência, com argumentação válida, fundamentada. Já a apresentação de alternativas nem sempre se impõe como tarefa obrigatória. Aos políticos, talvez; não a quem age por conta própria.

No caso vertente, no poema citado, tratava-se de expressar um sentimento de forte desagrado com o curso dos acontecimentos políticos, com certos comportamentos dos seus principais autores, aqueles que têm desbaratado a generosa caução de crédito repetidamente recebida dos eleitores portugueses.

Começam estes, agora, a dar mostras claras de descrença e de enfado com a situação criada, desinteressando-se perigosamente da vida política nacional.

Torna-se notória a irritação de certas pessoas afectas sobretudo a áreas políticas ditas de esquerda com a comparação negativa com determinadas realidades do regime derrubado há trinta e cinco anos, sobretudo no que respeita aos casos de corrupção económica e moral que grassam pelo País.

Com escassas excepções, à cabeça das quais devemos colocar a Liberdade de que hoje usufruímos, apesar da visível incomodidade que o seu pleno uso gera nos actuais detentores «socráticos» do Poder, na maioria dos grandes temas da Política Nacional, a comparação é já possível de estabelecer-se e, nalguns casos, com vantagem para o regime não democrático de Salazar e Caetano.

Compreendo que este tipo de argumentação desagrade a muitos sinceros democratas, mas melhor seria que ela não se pudesse sequer esboçar.

Ora, com a continuação das presentes nulidades no Poder, com a contemporização do eleitorado para com os seus numerosos desacertos na acção política e com as suas múltiplas trapalhadas e malfeitorias de ordem ética, temo que não só as ditas comparações se multipliquem e reforcem, como também possam conduzir os cidadãos a um sentimento de indiferença, por indistinção, ante as características específicas dos regimes em comparação.

Não basta lançar anátemas sobre os adversários e, em simultâneo, proferir declarações pias de intenção democrática, para se colher credibilidade política. O que se faz, o que se realiza é que permite tal credibilidade.
Analogamente, os mesmos feitos devem merecer a mesma apreciação, não mudando esta consoante a identidade dos autores, critério banal, como se me afigura, mas sistematicamente ofendido por parte da actual maioria política «socrática».

Quanto mais tempo durar esta duplicidade de critérios mais se degradará a situação política. Se, entretanto, não surgir nenhuma nova força política, na área moderada da Social-Democracia ou do Socialismo Democrático, com mais Democracia e menos Socialismo, se das formações existentes nenhuma renovação verdadeira surgir, então as referidas comparações entre o actual regime, putativamente democrático, e o seu antecedente, reconhecidamente não democrático, cada vez se tornarão menos lisonjeiras para o primeiro, por muitos encómios com que o enfeitem.

E o que possa emergir deste sentimento corre o risco de surpreender muita gente. Basta começar por evocar a figura do Primeiro-Ministro do último Governo da Ditadura em confrontação com a do actual P.M. José Sócrates.

Quem acham os leitores que ficará na História ?

Que méritos intelectuais, culturais, que perfil ético de cidadania, etc., ficarão associados a cada uma destas figuras ?

Que juízo farão destas personagens as gerações vindouras, as que aqui viverem por volta de 2060 ?

Não arrepia já pensar nisto ? Como pudemos chegar aqui ? Como sair de tal negrume ?

AV_Lisboa, 17 de Maio de 2009

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